Campo santo

Sérgio Malbergier para Folha de Sao Paulo

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Demorou, mas o Brasil finalmente tornou-se a potência agrícola que devemos ser com tanto sol, tanta terra, tanta água.

A safra de grãos 2007/2008 será a maior de nossa história, chegando a 136,5 milhões segundo as últimas estimativas. Na pecuária, lideramos as vendas mundiais de carne bovina e vamos muito bem no frango. E somos ainda imbatíveis na produção de biocombustíveis.

Isso tudo ocorre no momento em que os estoques de grãos mundiais estão no seu nível mais baixo dos últimos 25 anos e o consumo de biocombustíveis e alimentos explode pelo mundo, com centenas de milhões de indianos e chineses comendo como nunca comeram. Assim, os preços dos produtos agropecuários que exportamos atingem níveis recordes.

O índice de preços de alimentos da FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), baseado nos preços de exportação dos 60 produtos alimentícios mais comercializados no mundo, subiu 37% em 2007 após alta de 14% em 2006.

O resultado disso tudo é uma enxurrada de bilhões de dólares ao país, que garantem a força de nossa moeda em plena crise financeira global, o superávit da balança comercial (o saldo do setor em 2007 foi de US$ 50 bilhões) e ainda uma distribuição de riqueza que penetra em quase todas as regiões do país, não se restringindo aos grandes centros.

Essa força na produção de alimentos e biocombustíveis garante ao Brasil ainda uma projeção geopolítica que nos colocou, com a ajuda da boa diplomacia do chanceler Celso Amorim, entre os quatro protagonistas mundiais da chamada Rodada Doha para a liberalização do comércio, junto com EUA, União Européia e Índia, o chamado G4.

Mas o Brasil sendo o Brasil, isso ocorreu apesar da precária infra-estrutura institucional e física do país, que ainda ameaça o sucesso do agronegócio, como prova a suspensão das exportações de carne bovina à União Européia.

Apesar de darmos 35% de tudo o que produzimos ao (des)governo, a safra recorde que vamos colher terá que passar por milhares e milhares de quilômetros de estradas esburacadas e portos caros, mal cuidados e mal distribuídos, que encarecem a produção. Faltam ainda armazéns para estocagem, regras claras e estáveis de financiamento e política firme de seguro rural.

Outro problema é o da segurança sanitária, que será cada vez mais cobrada pelos nossos competidores, como mostra novamente o veto europeu à carne brasileira. E nessa nova era de consumo consciente, nossos consumidores externos estarão cada vez mais exigentes quanto aos meios de produção da agropecuária, para garantir que não envolvam devastação ambiental nem exploração desumana da mão-de-obra (as mortes nos canaviais por excesso de esforço provam que eles de fato têm um ponto).

É o preço do sucesso. E para pagá-lo será preciso mudar práticas antigas do setor, que sempre foi muito informal e pouco transparente, para dizer o mínimo. A abertura de capital de grandes empresas agropecuárias é um avanço, já que sua listagem na Bolsa, além de garantir acesso a crédito farto e barato, exige transparência saneadora.

Enquanto vários países do mundo enfrentam distúrbios sociais por causa do alto preço dos alimentos (a FAO os detectou recentemente na Guiné, Mauritânia, México, Marrocos, Senegal, Uzbequistão e Iêmen), o Brasil fatura bilhões de dólares e se fortalece política e economicamente.

Nossa vocação agrícola deve ser louvada mas mais que isso aperfeiçoada e desenvolvida. Quanto mais avançamos nos mercados alheios, mais nos tornaremos alvos de medidas protecionistas que pegam carona na exigência de meios de produção sanitária e politicamente corretos.

Os lucros que brotam do campo nesse cenário global extremamente favorável devem servir também para tornar nossa agropecuária mais eficiente, mais limpa e mais responsável.

Ainda há muito a fazer. E a colher.

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